Leonardo Boff: A mídia comete sim abusos ao atacar Lula e Dilma

O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Por Leonardo Boff

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando veem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública.

São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revistaVeja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele veem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma), “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo -Jeca Tatu-; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e para “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros.

De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construído com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

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Familiares reunidos em torno da mesa

Por Tamara Bauab Levai

“[…] Palavra tristeza/Aqui na mesa/Para o deleite de vossa alteza […]”

(Seychelles – À face do tempo)

Familiares reunidos em torno da mesa, com sentimentos híbridos de amor, obrigação, costume, e outros tantos. Pai, mãe, filhas, filhos, noras, cunhado, prima, namorada da prima, neto…

Uma criança pequena, ainda não totalmente civilizada, pergunta inocentemente porque o prato à sua frente tem olhos, boca e está sendo despedaçado pelo avô.

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo não vêem.” J. Saramago – Ensaio sobre a cegueira.

Vivemos em um estado de dormência moral, que nos torna cegos e apáticos a muitos comportamentos considerados “normais e naturais” por uma sociedade de cegos. Acomodados a repetição dos erros de nossos antepassados – sem questionar a maioria deles – comemoramos o nascimento do filho de um Deus “misericordioso e benevolente”, celebrando a paz e a compaixão; reunidos, em família, ao redor de ossos, músculos e vísceras que ora pertenciam ao corpo de animais de outras espécies.

A mídia que serve a interesses políticos e econômicos de forma inescrupulosa manipula a maioria das pessoas, que responde com um comportamento acrítico, manifestando uma típica doença dos tempos atuais: a cegueira ética condicionada. Incapazes de enxergar a verdade que tentam esconder de nós, vivemos enganados por vontade própria, desviando o olhar daquilo que nos incomoda.

Não parece que seja um comportamento natural, que seres humanos, que se dizem racionais, mais evoluídos, espiritualizados e sensíveis, sejam coniventes com as conseqüências de suas escolhas alimentares, que acarretam o aprisionamento, a tortura, o estupro, a escravidão, o assassinato e o consumo dos corpos de outros seres também capazes de amar, sofrer, sentir medo, angústia, dor, carinho e outras infinidades de sentimentos e sensações.

As propagandas veiculadas pelos meios de comunicação em massa nos mostram, a todo instante, perus, galinhas, porcos e vacas, felizes e ansiosos de contribuírem com o sabor de nossos pratos. Por mais que a indústria da morte tente nos convencer que as vacas e galinhas vivam soltas e felizes, nenhum delas concordaria em ser assassinada para ter seu corpo consumido em uma festa religiosa para evocar a paz entre os homens.

Não há o que comemorar sentindo o cheiro da morte, sendo cúmplices desta onda de assassinato em massa, quando deveríamos estar de luto constante pela infinidade de animais mortos para saciar a fome de violência do homem.

“Quem sabe, esta cegueira não é igual às outras, assim como veio, assim poderá desaparecer. Já viria tarde para os que morreram….” J. Saramago – Ensaio sobre a cegueira.


Tamara Bauab Levai –
tamybec@yahoo.com.br
Bacharel em Comunicação Social pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP, mestre em Ciências Biológicas – laboratório de Síntese Orgânica IP&D – Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento – UNIVAP, especialista em Biologia Celular e Histologia Geral – Departamento de Morfologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina, autora do livro “Vítimas da Ciência – Limites éticos da experimentação animal” (80 p.).

Fonte:
http://www.institutoninarosa.org.br/defesa-animal/artigos/88-etica/246-familiares-reunidos-em-torno-da-mesa

Caminhos da Liberdade

Texto retirado do site da revista VIDA SIMPLES

Caminhos da liberdade
Como reconhecer o que ainda nos amarra?

E o que é realmente ser livre? Algumas das respostas para essas perguntas fundamentais em nossa vida podem estar por aqui.

Dizem que o diabo andava passeando com um amigo quando viu um homem à sua frente abaixar-se para apanhar algo brilhante que faiscava em seu caminho. O homem pôs aquela estrela luminosa em suas mãos, admirou-a por um bom tempo e a colocou junto ao peito. O amigo do diabo, curiosíssimo, cochichou baixinho no ouvido de Satanás: Nossa!!! O que é que é aquilo!?! Que coisa mais linda e brilhante aquele sujeito pegou do chão! O diabo, experiente, respondeu: Aquele homem acabou de encontrar a liberdade ao colocar a luz da verdade em seu coração… Então o amigo do diabo exclamou: Xiiii, mas isso deve ser um péssimo negócio para você! Como vai poder obscurecer a verdade e aprisionar novamente o homem às suas intenções?!? O diabo arqueou as sobrancelhas, deu um sorriso malicioso e disse: Fácil. É só organizá-la em crenças, sistemas e instituições…

Quem gostava de contar essa historinha foi um dos homens mais livres que a humanidade talvez já tenha conhecido: o escritor e líder espiritual indiano Jiddhu Krishnamurti (1895-1986). Krishnamurti, como tantos outros que encontram o brilho da verdade e se tornam realmente livres, pode nos ajudar a enxergar nossos grilhões e nos ensinar como abandonar o peso de muitas correntes que atrapalham nossa caminhada. Os caminhos são muitos. Com liberdade, você pode escolhê-lhos entre as mais variadas opções.

‘Você terá agora a liberdade de escolher a maneira como quer ler este texto. Se desejar saber qual o significado da metáfora do camelo, do leão e da criança, vá em frente. Se quiser participar de uma reunião no Deux Magots, o café dos existencialistas em Paris, para saber o que Sartre achava da liberdade, pule três blocos de texto. Se desejar ler este artigo de trás pra frente, vá até o fim e leia os blocos de texto na ordem inversa.’
Camelo, leão e criança

Uma metáfora, com suas imagens, é muito mais forte que mil palavras, especialmente quando ela retrata nossa própria condição. Uma das metáforas mais poderosas sobre a condição humana e sua relação com a liberdade é a do camelo, do leão e da criança. Ela foi empregada pelo filósofo alemão Fiedrich Nietzsche no século 19 e até hoje é utilizada para demonstrar as diferentes metamorfoses da consciência e nossa possibilidade de sermos livres. Diz ele que o homem, ao nascer, é como o camelo. É obrigado a comer, assimilar e armazenar, por um bom tempo, grande parte dos dados, histórias e ensinamentos acumulados pela humanidade ao longo de séculos. Essas informações chegam a ele por meio das orientações dos pais, professores e mestres, da convivência com seus iguais ou também por toda a produção cultural existente na sociedade: livros, filmes, arte, teatro, arquitetura, todo tipo de mídia… Ele vai ruminar, ruminar e ruminar essa quantidade enorme de dados até construir seu sistema de valores e crenças que, na maioria das vezes, já está alinhado com valores e crenças organizadas e pré-existentes sejam elas religiões, sejam elas sistemas políticos, filosofias ou doutrinas.

A maior parte da humanidade, diz Nietzsche, vive no estado de camelo. Só assimilando, aceitando, deglutindo. Ou, pior, se estapeando por causa do conteúdo engolido, isto é, por causa de suas crenças, ideologias ou religiões. Os homens-camelos não têm potencial crítico para se afastar da própria crença, analisá-la de forma isenta e descobrir seus pontos falhos ou ângulos distorcidos. Principalmente porque ela está baseada na emoção, não na razão. Por isso, para eles, de alguma forma parece impensável e sacrílego fazer essa avaliação.

Uns poucos entre os camelos chegam ao estado de leão. Normalmente, os grandes felinos se insurgem contra isso tudo que está aí, como se dizia na década de 70. Pode ser por meio da arte, como Picasso, que subverteu os cânones dos critérios artísticos aceitos até sua época (não sem antes dominálos muito bem, por sinal). Pode ser por meio do cinema, como Ingmar Bergman, que trouxe a conflituosa realidade psicológica do ser humano para seus filmes inovadores. Ou pode ser por meio da religião. Francisco de Assis, por exemplo, foi um extraordinário leão de seu tempo.

Leões são geralmente líderes e, por isso, têm enorme influência junto aos camelos. Por isso mesmo, muitas vezes são feitos em pedacinhos por eles ou, então, por outros leões na defesa de seu território. O problema do leão é que, na maioria dos casos, ele ainda está preso ao que ele é contra. Pode dedicar sua vida e até morrer por seu ideal. Como diz o mestre espiritual Osho, que comentou a teoria de Nietzsche no livro ‘Liberdade, a Coragem de Ser Você Mesmo’, a grande maioria da humanidade está empacada no estado do camelo; a minoria está empacada no estágio do leão. A maioria significa as massas; a minoria, a ‘intelligentsia’ (pintores, músicos, cineastas, intelectuais, escritores, uma boa parte dos pensadores…). O leão, continua Osho, evolui das massas e se faz por si mesmo. Ele é basicamente mental e egóico. Já para se formar a criança é preciso uma formidável revolução interior. A criança é a pessoa que passou por uma transformação interna absolutamente radical. Ela tornou-se um outro ser, renasceu. É pós-mental e pós-egóica. O camelo vive no passado, o leão no futuro e criança no aqui-e-agora.

Ela é a única realmente livre.

‘Se você quer saber como se tornar uma criança, leia o próximo parágrafo. Mas, se quer entender como a análise pode ajudá-lo a conhecer mais de perto seu projeto de liberdade, pule dois blocos de texto e vá direto a outro trecho deste artigo. E, para entender o que o surfe, o swing e a liberdade têm em comum, pule o próximo bloco e encontre as idéias de um dos mais famosos pensadores franceses.’
De lagarta a borboleta

Um dos mais precisos retratos da condição humana foi traçado pelo pensador Jiddhu Krishnamurti. Dizia ele que nós, seres humanos, somos os mesmos que éramos há milhares de anos ávidos, invejosos, agressivos, ciumentos, ansiosos e desesperados, com ocasionais lampejos de alegria e afeição. Somos uma estranha mistura de ódio, medo e ternura; somos ao mesmo tempo violência e paz, repetia o mestre em suas palestras. Afirmava que, embora os tempos modernos tivessem trazido mais conforto, segurança e tecnologia, psicologicamente continuávamos os mesmos. E as estruturas sociais também, já que elas são o resultado direto de nossa condição interior. Todas as formas exteriores de mudanças, produzidas pelas guerras, revoluções, reformas, pelas leis e ideologias, falharam completamente, pois não mudaram a natureza básica do homem e, portanto, da sociedade, disse ele em sua crueza cristalina.

Então a pergunta que Krishnamurti faz é: o que podemos fazer para promover em nossa própria essência uma revolução total, uma mutação psicológica radical, para não sermos mais brutais, violentos, competidores, ansiosos, ávidos, invejosos, e para que brote definitivamente a fonte inesgotável do amor e da afeição em nós? Isto é, o que podemos fazer para voltarmos a ser livres como uma criança? Sua resposta para essa pergunta é muito estranha: olhar, observar. Prestar atenção verdadeiramente, realmente, em tudo o que está dentro e fora de nós. Ver as correntes que nos prendem, observar os grilhões a que estamos atados, as mentiras, os sonhos, as fantasias. Um encontro cara a cara com a verdade, cada dia mais profundo. E quando aprendermos a olhar de maneira tão sincera e real, disse Krishnamurti, tudo se esclarecerá. As correntes começarão a se desfazer, a visão estará mais límpida e desimpedida. Isso pode ser doloroso.

A primeira coisa que se torna evidente depois de olhar e observar é que sequer conseguimos seguir o sistema, religião ou ideologia que defendemos com tanto ardor. Você tem suas inclinações, tendências e pressões peculiares, que colidem com o sistema que julga seguir portanto, existe uma contradição básica. Você tem assim uma vida dupla, entre a ideologia do sistema e a realidade de sua vida diária, diz ele. No esforço para se ajustar à ideologia (ou religião, ou doutrina), você recalca a si mesmo, seu ser verdadeiro. Sua essência é massacrada por um milhão de vozes: de sua personalidade, da sociedade, de sua própria consciência fragmentada. No entanto, o que é realmente verdadeiro não é a ideologia, mas aquilo que você é.

Krishnamurti acreditava que, ao se livrar do enorme peso das tradições, religiões e ideologias e do seu próprio passado, o indivíduo ganhava uma carga extraordinária de energia e vitalidade. Criava então condições internas e força suficientes para ser livre. A própria energia disponível tornava-se o combustível da mutação necessária para a transformação.

O que Krishnamurti revela é algo fresco, novo, diferente. Nesse sentido, ele nos propõe sermos como uma criança, uma borboleta que se transformou radicalmente ao abandonar o estágio de larva e lagarta. Essa criança pode viver tranqüilamente no mundo, e não vai querer apenas queimar bandeiras como um leão revoltado. Está no mundo, mas não pertence mais a ele, como disse Cristo em seus Evangelhos. É criativa, leve, solta. E feliz. Nada mais a sufoca. Embora o pensador indiano não acreditasse no potencial transformador das religiões, pode-se dizer que alguém, ao viver o âmago de um ensinamento espiritual, como Buda ou Jesus, também conquista essa mesma liberdade e pureza. Mas será que nós, pobres mortais, também a atingimos?

‘Continue em frente e veja como a alegria e a vibração estão relacionadas a nossa possibilidade de sermos livres. Ou dê um pulo três blocos de texto adiante para conhecer o que mais nos atrela à escravidão, nas belas palavras do poeta indiano Rabindranath Tagore.’
Erva e água clara

Com essa expressão tão viva, que nos faz sair da abstração do mundo das idéias para reencontrá-las na natureza, o pensador francês Gilles Deleuze nos conduz ao mundo vibrante onde está inserida a liberdade. Ser livre, para ele, é seguir a vibração pulsante do nosso coração. Como um surfista atrás daquela onda perfeita, um aplicado músico de jazz que busca o swing, devemos estar atentos ao que nos torna vibrantes, brilhantes e vivos. Cada um tem seu feixe de energias, cada um vibra e ressoa à sua maneira, seja com um pouco de erva e água clara, seja com palavras e pensamentos, seja com uma tarde de verão e um sorvete ou com um ensaio de órgão numa igreja vazia. Não perder de vista o que nos deixa vivos é uma bela placa rumo à liberdade de ser. Porque, quando nos sentimos energéticos e brilhantes por dentro, manifestamos o que é mais real em nós.

Nesse sentido, Deleuze se aproxima muito do próprio significado original do termo liberdade. A palavra ‘prya’, em sânscrito, que significa aquilo que se ama e que dá prazer e alegria, deu origem à palavra ‘free’ (livre), em inglês. ‘Prya’ é muito mais do que se libertar de alguma coisa, como quer o termo latino. ‘Prya’ é, simplesmente, ser feliz!

Mais uma vez, e nessa mesma direção, o mestre Osho nos ajuda. A liberdade tem dois aspectos: a liberdade de e a liberdade para. Ser livre dos pais, da igreja, da empresa, de prisões consentidas não significa muita coisa. É uma liberdade negativa. A pergunta é: ser livre para quê? Ser livre para ser, para criar, para se expressar, isso é o que importa. As pessoas criativas são belas, felizes, plenas, e vivenciam a vida ao máximo, diz ele.

Quando se é livre, sua ação é exatamente a extensão de seu próprio ser. Até atingir a liberdade há escolhas: direita, esquerda, certo, errado, bom, ruim. Depois não, ser e viver passam a ser uma coisa só, diz o surfista quase zen Hélio Aguiar Fernandes do alto dos seus 24 anos. De maneira simples, ele repete o que mestres e sábios já disseram. A verdadeira liberdade é ser você mesmo. Não significa apenas fazer o que se quer ou, pior, ficar indeciso entre escolhas. Se depois de tomada uma decisão a gente ficar preocupado se teve a atitude certa, se era melhor de um outro jeito, ou se nos esvaímos em culpas, não se é livre. A liberdade é algo que chega naturalmente e se instala, acompanhando a evolução da consciência, afirma a jornalista Luzia Pimentel.

Portanto, liberdade é única e exclusivamente ser do jeito que você é, deixar seu ser verdadeiro transbordar dentro de si e permitir que ele dirija suas ações. E não se há de ter medo de uma liberdade assim. Um ser livre não prejudica ninguém porque tem noção da interdependência de todos os seres. Ele está conectado a tudo e a todos. É o que dizem pensadores como Fritjof Capra, autor de livros como ‘Teia da Vida’ e ‘Conexões Ocultas’. Nesse nível de consciência, a liberdade considera o outro, não é antiética ou irresponsável. Não existe agir ou não agir corretamente quando existe liberdade. Você é livre, e, desse centro livre, age. Portanto, não existe medo, e a mente sem medo é capaz de infinito amor, diz Krishnamurti com um golpe de mestre. Só pode amar verdadeiramente quem é livre.

‘Se você quiser conhecer agora o que acontece numa clínica existencialista com pacientes à procura da liberdade, continue. Se desejar ir para o último bloco de texto e saber se um dia podemos ser realmente livres, pule esta parte e leia o último trecho do texto.’
Café no Deux Magots

Talvez ninguém tenha falado tanto e tão profundamente sobre a liberdade no século 20 quanto o filósofo francês Jean-Paul Sartre. Para os existencialistas franceses, que costumavam se reunir no pós-guerra em cafés parisienses como o ‘Flore’ e o ‘Deux Magots’, a liberdade era a condenação do ser humano. Sua múltipla possibilidade de escolhas o colocava numa situação sem escapatória, sem saída. Para Sartre, o homem era condenado a escolher, sempre e sempre, pois ele é a própria essência da liberdade. Ou seja, o ser humano é ser humano por ser, em si mesmo, um projeto de liberdade. Ele é a expressão do desejo de ser ser livre, ser um ser. Cada homem ou mulher é uma liberdade vivendo segundo um projeto original de ser e de escolher, diz o psicólogo e psicoterapeuta corporal Levi Leonel de Souza, que usa o ponto de vista existencialista na psicanálise. O paciente de uma clínica existencial se descobre como um ser que deseja a liberdade. Nesse processo terapêutico, floresce seu projeto original particular, que é seu modo especial de exercer sua humanidade, sua liberdade, diz.

É um desafio e tanto: nos descobrirmos como seres que anseiam pela liberdade, e da liberdade vivenciada de uma determinada maneira, que é particular a cada um. Para conhecer esse ponto fundamental de uma existência, vale qualquer esforço.

‘Se você quiser conhecer a frase que fica nos pés da Estátua da Liberdade, vá em frente. Se quiser parar para reler algum trecho do texto antes de terminá-lo, faça isso sem pressa, sem afobação.’
Amados grilhões

Como você realmente gostaria de ser lembrado na vida? O poeta indiano Rabindranath Tagore tinha certeza de que gostaria de ser reverenciado como um homem livre, que viveu ao máximo seu próprio ser. Eu só tenho um desejo que se lembrem de mim como um cantor de orações, como um dançarino, como um poeta que ofereceu todo seu potencial, todas as flores do seu ser para a divindade desconhecida da existência, dizia ele. Porém, também foi Tagore quem escreveu que desejava a liberdade mas que também amava tudo aquilo que o acorrentava na vida, que ele chamou de meu manto de poeira e morte. Odeio-o, mas o abraço com amor, reconheceu humildemente o poeta. Tagore era como qualquer um de nós: querendo ser livre mas ainda assim amando e desejando aquilo que o agrilhoava. Mas a própria liberdade parece não se importar muito com nossas correntes e o estranho (mas perfeitamente compreensível) amor que dedicamos a elas. O belo e famoso soneto da poeta americana Emma Lazarus, Novo Colosso, aos pés da Estátua da Liberdade, em Nova York, dá as boas-vindas aos fracos, miseráveis e desesperados como nós, que desejam ser livres. O poema foi dedicado aos milhões de imigrantes que chegavam aos Estados Unidos entre o fim do século 19 e o início do século 20, gente que ansiava por liberdade política, religiosa, econômica. Para eles, a deusa oferece, generosamente, a luz brilhante de sua tocha.
Para saber mais:

Livros:
‘As Conexões Ocultas’, Fritjof Capra, Cultrix-Amana-Key
‘Liberdade, a Coragem de Ser Você Mesmo’, Osho, Cultrix
‘Liberte-se do seu Passado’, Jiddhu Krishnamurti, Cultrix
‘Vitaminas Filosóficas’, Theo Ross, Casa da Palavra